Criação da Equipa de Reabilitação do Doente Crítico

13 Maio, 2022

Foi recentemente criada a Equipa de Reabilitação do Doente Crítico do Serviço de Medicina Física e de Reabilitação (SMFR) do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF), constituída por profissionais diferenciados na resposta às necessidades específicas e complexas de Reabilitação na Doença Crítica, que colabora no Serviço de Medicina Intensiva (SMI).

O objetivo é a otimização dos cuidados de Reabilitação do doente crítico, cuja evolução é pautada por instabilidade e grande variabilidade, e a minoração das suas sequelas funcionais pós UCI. Procura dar resposta às necessidades crescentes de doentes internados no SMI, com uma equipa do SMFR dotada de várias valências – Fisioterapia, Terapia da Fala e Terapia Ocupacional – em articulação sinérgica com as equipas médica e de enfermagem do SMI.

A Equipa de Reabilitação do Doente Crítico é composta por uma médica fisiatra, seis fisioterapeutas, um terapeuta da fala e um terapeuta ocupacional. A equipa faz parte do SMFR e presta cuidados, de forma continuada, 365 dias por ano, nas várias Unidades de Cuidados Intensivos do SMI (UCIP, UCICRE e UCI2).

ENTREVISTA

“Equipa diferenciou-se na resposta às necessidades específicas e complexas de reabilitação na doença crítica”

Catarina Matos, médica fisiatra, e Gonçalo Lopes, fisioterapeuta, falam sobre a nova Equipa de Reabilitação do Doente Crítico do Serviço de Medicina Física e de Reabilitação (SMFR) do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF), criada com o objetivo de otimizar os cuidados de Reabilitação do doente crítico.

Quais os objectivos do Grupo de Reabilitação da Medicina Intensiva?

Catarina Matos (CM): A Equipa de Reabilitação do Doente Crítico constitui uma equipa multidisciplinar do Serviço de Medicina Física e de Reabilitação que se diferenciou na resposta às necessidades específicas e complexas de Reabilitação na doença crítica. Foram objetivos assegurar cuidados de Reabilitação com diferenciação técnica (trabalhando com doentes sob técnicas contínuas de suporte de órgãos), ser um interveniente importante no desmame ventilatório e na descanulação, participar na gestão do delirium em UCI, proporcionar reeducação neuromotora especializada (tanto por neuromiopatia associada à doença crítica, como pela concomitância de doença neurológica aguda), intervir na gestão da disfagia do doente crítico prevenindo readmissões por aspiração pulmonar. Visou-se otimização dos cuidados de Reabilitação do doente crítico, cuja evolução é pautada por instabilidade e grande variabilidade.

Procurámos dar resposta às necessidades crescentes dos doentes internados no Serviço de Medicina Intensiva, com uma equipa dotada de mais valências (Fisioterapia, Terapia da Fala e Terapia Ocupacional), mais especializada, consistente e com maior presença no SMI, em articulação multidisciplinar sinérgica com as equipas médica e de enfermagem da Medicina Intensiva.

A que necessidades vem responder?

Gonçalo Lopes (GL): A evolução da ciência médica criou maior número de internamentos em Unidades de Cuidados Intensivos, mas também de maior número de sobreviventes de Doença Crítica. Desta resultam várias complicações e sequelas (ex. delirium, fraqueza muscular adquirida em cuidados intensivos, dependência prolongada ou crónica de ventilação invasiva, disfagia, compromisso cognitivo e humoral, stress pós-traumático), que nas últimas duas décadas têm sido mais reconhecidas. A abordagem precoce destas comorbilidades associadas à doença crítica (orgânicas, psicológicas e físicas), procura minorar as suas sequelas, em continuidade com a Reabilitação pós-UCI, determinantes nos resultados funcionais de um sobrevivente de cuidados intensivos, para que exista qualidade de vida após o suporte em cuidados intensivos.

O crescimento do SMI com a inauguração em finais de 2020 da nova Unidade do HFF (Unidade de Cuidados Intensivos nível 2) acarretou um aumento das necessidades em termos de Reabilitação e o SMFR procurou responder dentro das suas capacidades condicionadas pelas limitações de recursos humanos e técnicos.

O reforço de equipamentos novos de Reabilitação (como cicloergometria de leito, power breath, válvula fonatória em doente ventilado), que são uma enorme mais-valia na recuperação destes doentes, no encurtamento dos internamentos em UCI e na minoração de sequelas pós-UCI, condiciona maiores necessidades de profissionais diferenciados.

Que vantagens vai trazer para os doentes internados no SMI? Para todos os doentes do Serviço?

CM: As vantagens são muitas. Basta imaginar o que seria o SMI sem o apoio do SMFR. Os doentes que passam longos períodos ventilados mecanicamente, imobilizados no leito, sem atividade física, têm uma perda a nível da funcionalidade que, sem a MFR, levaria a um declínio ainda maior da sua autonomia, com repercussão no tempo prolongado de ventilação mecânica que necessitariam, na gestão mais difícil do delirium e suas sequelas cognitivas, com o aumento dos tempos de internamento, no aumento dos sintomas psiquiátricos decorrentes do stress pessoal do internamento em UCI.

Duas complicações que decorrem da diferenciação técnica da Medicina Intensiva, que proporcionou maiores taxas de sobrevivência em UCI, são a Fraqueza Muscular Associada a Cuidados Intensivos (FMACI) e a Síndrome Pós-UCI (Pós intensive Care Syndrome). A FMACI é de origem multifactorial, sendo que um dos fatores mais facilmente controláveis é a imobilização prolongada, que combatemos, genericamente, com a mobilização precoce, o fortalecimento muscular, o levante precoce, a posição ortostática e a marcha de doentes internados em UCI. O Síndrome Pós-UCI é também ele multifatorial, engloba várias comorbilidades, não só físicas e de funcionalidade, mas também psicológicas e mentais dos sobreviventes a UCI e dos seus familiares/cuidadores. A gestão do delirium, a promoção da mobilização precoce, a promoção da autonomização ventilatória, o levante precoce, a perspetiva de recuperar a capacidade de locomoção e de voltar a conseguir participação em AVD, são aspetos-chave na recuperação destes doentes que são proporcionados pela Reabilitação em UCI. Estes são apenas dois exemplos de condições major que reiteram a importância fundamental de uma Equipa de Reabilitação do Doente Crítico.

Que profissionais de saúde é constituído este grupo?

GL: A Equipa de Reabilitação do Doente Crítico é composta por uma médica fisiatra, seis fisioterapeutas, um terapeuta da fala e um terapeuta ocupacional. Esta Equipa faz parte do Serviço de Medicina Física e de Reabilitação e presta cuidados, de forma continuada, 365 dias por anos, nas várias Unidades de Cuidados Intensivos do SMI (UCIP, UCICRE e UCI2).

Previamente existia um grupo coordenado por Fisiatra de Fisioterapeutas que trabalhava 7 dias por semana no SMI. Porém, este grupo diferenciou-se numa Equipa específica de profissionais mais experientes em UCI, que integrou outras valências de MFR e que trabalha em sinergismo multiprofissional com as equipas clínica e de enfermagem do SMI. É assegurada uma presença regular, mais consistente, com discussão e partilha comum de objetivos.