Entrevista a Filipa Gerardo – Prémio “Melhor Trabalho de Investigação”

16 Fevereiro, 2024

Entrevista a Filipa Gerardo
Vencedora do Prémio “Melhor Trabalho de Investigação”

 

  1. “Prognóstico na embolia pulmonar (POPE): pontuação de risco mortal em 30 dias com base em cinco parâmetros de admissão”. Em que consiste, pormenorizadamente, a sua investigação?
    O PoPE consiste num score de risco de mortalidade precoce do tromboembolismo pulmonar (TEP) aos 30 dias após a admissão. É baseado em cinco parâmetros de fácil obtenção: idade, índice de choque modificado (calculado através da tensão arterial sistólica e frequência cardíaca), alteração do estado de consciência, neoplasia ativa e lactato superior a 2.5mmol/L. Cada elemento pontua 1 no score PoPE, à exceção do lactato que pontua 2. Uma pontuação 0 implica uma mortalidade <0.5%, o que significa uma ausência de gravidade nestes doentes. Um score igual ou superior a 2 transpõe uma mortalidade de 20%, com uma sensibilidade de 90% e especificidade de 63.4%, muito superiores ao score de PESI (o score de mortalidade atualmente mais utilizado e validado no TEP).
  1. Quando (ano) é que iniciou esta investigação e porquê (motivos concretos)?
    Iniciámos a investigação em 2014 no HFF (cohort principal de doentes) e no Hospital de Santa Maria (cohort de validação do score, com menos doentes). É um projeto de muitos anos que surgiu da necessidade de encontrar uma forma de avaliação simples e rápida dos/as doentes com TEP. O score PESI envolve parâmetros de difícil obtenção num primeiro encontro com o/a doente, não permitindo muitas vezes “triar” de forma mais urgente os/as doentes mais graves. Com uma unidade de cuidados intensivos cardíacos (UCIC) que recebe os TEP de risco intermédio-alto, o nosso objetivo é não ter de chegar à fibrinólise como último recurso e identificar os/as doentes de alto risco precocemente.
  1. Está finalizada? Caso não esteja, o que falta concluir?
    Sim. O que falta concluir é a utilização diária do score e avaliar a aplicabilidade no dia-a-dia (que esperemos que seja com adesão em massa).
  1. Quais as “guidelines” que a motivaram a enveredar por este campo de investigação?
    As guidelines do TEP (2014 na altura, agora de 2019) da Sociedade Europeia de Cardiologia.
  1. Que constrangimentos e/ou obstáculos foi encontrando pelo caminho?
    Muitos! A colheita de dados foi sobretudo o mais moroso, mas a integração inter-hospitalar também se revelou complicada. 
  1. Quais as mais-valias e/ou vantagens deste projeto de investigação aplicado ao HFF e, agora, à ULS Amadora/Sintra?
    A ULS Amadora/Sintra tem uma área (subestimada) de 700000 habitantes, com um dos serviços de urgência mais movimentado a nível nacional. A rápida e correta avaliação dos/as doentes à admissão é essencial. Este projeto de investigação vem tentar colmatar a necessidade da correta identificação do/a doente grave à admissão. Faz no fundo uma triagem do/a doente grave e com maior risco de mortalidade à admissão.
  1. Nacionalmente, que tipo de acolhimento tem sentido à sua pesquisa/investigação?
    O artigo foi muito recentemente publicado na Revista Portuguesa de Cardiologia (em janeiro deste ano). Já conta com uma citação o que naturalmente deixa o serviço no geral e os/as autores/as, em particular, muito satisfeitos/as com o que foi um grande trabalho de equipa.
  1. Esta sua investigação está ainda no campo teórico ou já tem aplicabilidade prática?
    Já tem aplicabilidade prática. Está pronto a ser usado e testado no nosso serviço de urgência.
  1. A sua investigação tem “colhido” frutos internacionalmente? Se sim, quais?
    Neste momento estamos a apontar mais para uma perspetiva nacional, para a validação do score no nosso contexto. Mas já foi apresentado em vários congressos internacionalmente.
  1. Que público-alvo irá beneficiar, com mais abrangência, desta sua investigação?
    O nosso score pretende ser prático e de aplicabilidade rápida. A sua vantagem é sobretudo nos serviços de urgência, à cabeceira do/a doente. Foi com esse propósito que o score foi desenvolvido. Quando chega à UCIC o/a doente já está instável, já sabemos que é de alto risco. Nós queremos é triá-lo/a antes, e prever os/as doentes com maior gravidade.
  1. Que passos faltar dar para que esta sua pesquisa evolua e transponha barreiras até agora intransponíveis?
    Aplicar o score de uma forma prospetiva de forma generalizada a nível nacional.
  1. Projetos futuros, ou já em curso, alinhados com esta sua investigação?
    Neste momento estão a decorrer mais trabalhos na avaliação do/a doente com TEP, sobretudo na área do tratamento.
  1. Trata-se de uma investigação “a solo” ou trabalha integrada numa equipa?
    Sem dúvida em equipa. Foi um trabalho que envolveu muito tempo e muita dedicação de muitas pessoas. Não teria sido possível de outra forma.
  1. Há trabalhos de investigação na mesma linha de estudo e/ou campo de atuação no estrangeiro? Se sim, onde?
    Sim, o TEP é uma área com muita investigação. Há estudos na área do diagnóstico e do tratamento a decorrer (RCT PEITHO-3, que estuda a utilização da alteplase de baixa dose no TEP). Apesar dos desenvolvimentos, não têm sido apresentados outros scores de mortalidade. O PESI é um score já estabelecido e apesar de não ser massivamente utilizado pela sua complexidade, chega para a estratificação e avaliação da terapêutica dos/as doentes em ensaios clínicos, não se tornando atrativo a realização de scores de mortalidade em grandes revistas (mesmo que mais úteis do ponto de vista prático).
  1. Quais são os nomes mais sonantes nesta área de atuação e/ou investigação (nacional ou internacionalmente)?
    Stavros V Konstantinides (1º autor das guidelines de TEP em 2019) e Guy Meyer (1º autor do PEITHOS – estudo da fibrinólise no TEP de risco alto).
  1. Vencer o Prémio “Melhor Trabalho de Investigação” do HFF trouxe-lhe novas realidades de vida? Quais? Como tem lidado com as mesmas?
    O Prémio do HFF é um reconhecimento muito importante do trabalho de todo o serviço. É uma excelente iniciativa do Hospital em reconhecer os trabalhos feitos e apresentados anualmente. O número de trabalhos enviados e a escolha destes para a sessão do prémio revela a qualidade científica que é feita diariamente no HFF. Sem dúvida que foi muito bom poder apresentar o projeto ao lado de trabalhos tão importantes e relevantes.