Médico do HFF, Filipe Seguro Paula, concluiu doutoramento na área das doenças autoimunes

21 Abril, 2023

Filipe Seguro Paula, médico do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF) concluiu recentemente o seu doutoramento. O projeto de doutoramento intitulou-se “O papel da sinalização Notch na disfunção endotelial da esclerose sistémica“. Foi desenvolvido nos últimos sete anos e fez parte integrante da investigação desenvolvida pela equipa constituída, por um lado, pelo Serviço de Medicina IV e Unidade de Doenças Imunomediadas Sistémicas (UDIMS) do HFF, e, por outro, pelo grupo de investigação Resposta Imune e Doença Vascular, da NOVA Medical School – Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

Estes dois polos, o primeiro de base clínica, baseado na Medicina Interna e na Imunologia Clínica, e o segundo, de base na ciência fundamental, funcionam de forma integrada desde 2010 desenvolvendo investigação translacional, e sendo constituído por médicos/as que conjugam a prática clínica com a investigação.

Este trabalho de doutoramento incidiu sobre a esclerose sistémica, uma doença autoimune crónica cujos mecanismos são ainda desconhecidos, e para a qual não existem tratamentos particularmente eficazes e que provoca uma enorme morbilidade e mortalidade numa população constituída predominantemente por mulheres jovens.

Graças a esta investigação foi possível descobrir que os doentes têm um anticorpo, até à data desconhecido, que é capaz de influenciar a forma como os vasos sanguíneos capilares funcionam de forma adversa, e que explica várias manifestações importantes da doença. Esta descoberta poderá permitir o desenvolvimento de terapêuticas mais dirigidas e eficazes para esta doença.

O HFF dá os parabéns o médico Filipe Seguro Paula pela obtenção do seu doutoramento.

Aqui partilhamos consigo o resumo da referida tese de doutoramento:

Introdução: A esclerose sistémica (ES) é uma doença crónica e debilitante, para a qual a terapêutica existente tem uma eficácia muito limitada. Afetando indivíduos de qualquer idade, incide maioritariamente em mulheres jovens e resulta em elevada morbilidade e morte prematura, relacionadas com disfunção vascular e fibrose tecidular disseminadas. A sua fisiopatologia é ainda pouco clara, concentrando-se o conhecimento atual fundamentalmente em mecanismos gerais da ativação fibroblástica e numa disfunção endotelial parcamente caracterizada, com alterações microanatómicas incluindo exuberantes dilatações capilares denominadas megacapilares.

A via de sinalização Notch é um mecanismo de comunicação intercelular evolutivamente conservado, que está presente virtualmente em todos os órgãos e tecidos, tanto durante a morfogénese como na vida adulta, no estado saudável e na patologia. O seu papel na biologia vascular é crucial para o estabelecimento e manutenção de uma rede capilar microvascular funcional. Neste contexto, medeia e regula também a interação entre o endotélio e células perivasculares, como pericitos e fibroblastos. Está já demonstrado na literatura que a sobreativação artificial da sinalização Notch em células endoteliais resulta numa série de distúrbios da fisiologia vascular normal que recapitulam em larga medida a fisiopatologia da ES.

Esta tese foi desenvolvida tendo por base a hipótese de que existirá nos doentes com ES um fator sérico ainda não caracterizado que produz uma ativação da sinalização Notch no endotélio vascular.

Métodos: Analisaram-se diferenças na expressão genética de componentes da via Notch (recetores, ligandos e genes alvo) e respetivo estado de ativação em células endoteliais da microcirculação in vitro, após exposição a soro de doentes com ES (n=22) ou de controlos (n=10), através de qRT-PCR, imunofluorescência e western blot. Averiguou-se a dependência do efeito sobre o tempo e sobre a concentração através da utilização de várias concentrações de soro e diferentes tempos de incubação. Utilizou-se imunoglobulina G purificada a partir dos diferentes soros para caracterizar o fator sérico. O impacto na expressão e ativação dos recetores endoteliais de VEGF foi também avaliado por RT-PCR e western blot. Foi testada a associação entre os níveis de expressão de Hey2 (um dos genes alvo da via) e várias características clínicas dos doentes, terapêutica atual e alterações microvasculares identificadas em videocapilaroscopia do leito ungueal.

Resultados principais: O soro de doentes com ES induziu de forma reprodutível a sobre-expressão e o aumento da localização intranuclear de Hey2. Este efeito teve início entre as 4h e as 6h de exposição ao soro, teve um pico às 8h, e entrou em plateau a partir das 12h, mantendo-se pelo menos até às 24h. O efeito correlacionou-se positivamente com a concentração do soro, sendo detectável mesmo com concentração de 1,9%. Associou-se também a um aumento da quantidade e da localização intranuclear da forma ativada de Notch-1, e o efeito foi pelo menos parcialmente revertido com a administração de DAPT, um inibidor da gama-secretase (complexo enzimático necessário à ativação dos receptores Notch). A utilização de imunoglobulina G purificada a partir de soro de doentes com ES reproduziu as alterações na expressão de Hey2. Esteve também associado a uma redução da sinalização VEGF, que corresponde ao efeito previsível de uma sobreativação da via Notch. O nível de expressão de Hey2 não diferiu entre fenótipos clínicos da ES, órgãos envolvidos, positividade para autoanticorpos previamente conhecidos, ou com a terapêutica. O grau de sobreexpressão de Hey2 induzido pelo soro de cada sujeito demonstrou uma forte associação com a presença de megacapilares na videocapilaroscopia.

Conclusões: Foi caracterizado um novo mecanismo fisiopatológico da ES, em que um autoanticorpo não previamente caracterizado existe nos doentes independentemente do fenótipo clínico, que resulta num aumento da sinalização Notch canónica através do recetor Notch-1 em células endoteliais da microcirculação, induzindo uma sobre-expressão e localização intranuclear de Hey2. Estes resultados sugerem também que a sobre-expressão de Hey2 está subsequentemente relacionada com níveis reduzidos de sinalização VEGF e com a ocorrência de megacapilares. Isto poderá corresponder a um passo a montante na fisiopatologia da ES, que poderá levar a novos alvos terapêuticos e a novas estratégias diagnósticas.