ULS Amadora/Sintra assinala Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor

23 Abril, 2024

Hoje, dia 23 de abril, No Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, damos a conhecer um autor da ULS Amadora/Sintra: Leonel Barbosa, médico no Serviço de Otorrinolaringologia (ORL), do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF).

Autor de livros de contos e também de poesia, Leonel Barbosa publicou obras já galardoadas em Portugal e no estrangeiro. Divide a sua vida entre a Escrita que o leva a pesquisar e para  a qual teve formação específica e a Medicina que exerce na atividade de consultas e cirurgias que realiza no hospital da ULS Amadora/Sintra. Saiba mais quem é este “escritor- médico” ou “médico-escritor”.

Leonel Barbosa começou a escrever desde que aprendeu: «materialmente, a escrever.» Declara que: «As minhas memórias mais estimulantes da escolha primária estão associadas às composições. Quando a professora mandava escrever uma página eu escrevia 20, porque era algo que me deixava totalmente embevecido. Depois disso, mantive a escrita de poesia e prosa, sem interrupções. A escrita com o objetivo de publicar, com um plano estruturado de trabalho, só começou em 2017, quando acabei o internato médico.» Afirma ainda que: «Para além do prazer de ler, quando leio enquanto escritor, disseco as estratégias que cada autor usa.»

O médico do Serviço de ORL do HFF descreve que: «em todo o meu percurso formativo médico, sempre quis escrever profissionalmente.» «Fui lendo, orientando as minhas leituras, as minhas experiências escritas e todo o processo de formação para também, um dia, me dirigir, de forma mais objetiva à escrita. Isto teria de acontecer, necessariamente, quando tivesse a vida médica mais estabilizada, quando já não tivesse de andar a adaptar-me a novas formas de confronto com a Medicina: da faculdade para o internato geral, de internato geral para internato de formação específica; quando soubesse onde iria trabalhar, quando tivesse a minha formação mais sedimentada. Isso aconteceu em 2017. Nesse ano, comecei a escrever de forma mais orientada, já com um plano de escrita e esse plano de escrita passou essencialmente por prosa, ou seja, escrevia contos, comecei a escrever alguns romances.»

Contos já premiados

Leonel Barbosa começou por escrever contos. «Criei um blog literário, o «In-consciência», a que ainda recorro. Durante um ano, escrevia semanalmente um conto, um poema, uma crónica, ou um ensaio e partilhava com a comunidade que, entretanto, se foi criando em torno do blog. Funcionou também como uma espécie de laboratório de escrita, em que ia experimentando possibilidades narrativas, possibilidades de escrita. É um espaço de muita liberdade, e foi um período de muito fervor criativo. Entretanto, utilizei muitos textos que escrevi nesse blog para compor um livro de contos que enviei para alguns concursos. O livro foi, para grande alegria minha, galardoado com o Prémio Revelação Literária da UCCLA, a União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (um “braço” da CPL e uma associação internacional da lusofonia que promove a divulgação da língua portuguesa). O livro de contos chama-se «Breviário de medo e malícia». É um conjunto de 19 contos, alguns deles escritos nesse período do «Inconsciência», outros escritos posteriormente. São contos com formas e temas muito diversificados, e uma natureza muito sincrética. Há contos com um enfoque na propriedade sensorial da linguagem, outros são páginas de diário, outros são cartas, outros são experiências de fluxo de consciência de objetos inanimados. É tudo muito experimental, mas tocam todos, de alguma maneira, em dois princípios primordiais que é o medo e as várias formulações do medo perante a morte, perante o desconhecido, perante as superstições, perante os mitos que nos circundam; e a malícia de alguma maneira, também dessas pulsões mais malévolas que pode haver em cada um de nós. Fiquei felicíssimo com a atribuição do prémio, porque o meu principal objetivo era a publicação do livro por uma editora tradicional. A entrada no mercado livreiro é dificílima. Este prémio está associado à publicação do livro pela «Guerra e Paz», uma editora consagrada, o que me deixou muito confortável, para além do prestígio associado ao concurso. O livro foi lançado na Feira do Livro do Porto, no final de início de Setembro O prémio foi entregue em Outubro de 2023, em Cabo Verde, num encontro de escritores de língua portuguesa. Estive com uma série de outros escritores de países lusófonos, num concílio que me deixou repleto de entusiasmo e verdadeiramente encantado com as expressões da Língua e da criatividade literária noutras latitudes.»

Poemas também premiados

Esta foi a questão que me deixou mais surpreendido. Eu sempre me vi como prosador. Escrevo poesia desde a infância (ou o que quer que se possa chamar às quadras pueris da Escola Primária, sobre a Primavera) e, mesmo no Blog «Inconsciência», publicava poemas. Porém, nunca achei que fosse muito competente nesse formato. Ainda assim, o júri do Prémio Natália Correia achou que havia algum grau de interesse. No dia 12 de junho de 2023, estava na Feira do Livro, em Lisboa e ligaram-me da Câmara Municipal de Ponta Delgada a indicar que tinha ganhado o prémio: «Natália Correia». É um prémio nacional de poesia que tinha também, como benefício associado, a publicação do livro. Foi publicado pela «Letras Lavadas.»

O ano de 2023 foi de grande atividade promocional literária. Foi também convidado para ser júri de um concurso de poesia, convidado para participar também numa antologia de poesia sobre as migrações, em homenagem ao poeta António Salvado.

No prelo está ainda um romance que espera poder acabá-lo em 2024.

Para Leonel Barbosa: «A poesia é uma pulsão.» E continua: «Não é algo que eu tenha decidido racionalmente, ou que tenha planeado, enquanto horizonte de trabalho. Há determinado tipo de fenómenos intelectuais, de emoções ou de conseguimentos na nossa construção interior, que só podem ser convertidas em poesia. Não escrevia poemas para publicação. Fazia-o enquanto exercício pessoal, quase de higiene emocional e mental. Os poemas surgiam naturalmente. Entretanto, tinha tantos acumulados, que achei: «por que não enviar?». Porém, não me considerava um poeta. Entre a minha poesia e a minha prosa, sempre achei que a que teria viabilidade editorial ou viabilidade comercial, seria a prosa. É difícil antecipar a receção que a poesia vai ter porque está tão longe da racionalidade do quotidiano e da visão esquemática que nós temos do quotidiano que não se sabe se vai ter ressonância noutra pessoa. Já a prosa implica, na maioria das vezes, uma narrativa com personagens, com espaço e tempo bem definidos, numa composição mais atreita a dissecção racional. É mais fácil sabermos se aquilo é ou não adequado ao meio em que estamos, à sociedade em que vivemos, ao mundo no momento histórico em que esta, etc. O acolhimento da poesia, porém, é um mistério.»

Sobre os seus poemas, o otorrino refere que: «são curtos e não seguem aquela formulação que geralmente se tem quanto à poesia, que é a de uma métrica rígida, com uma composição pungente. Às vezes são pequenos aforismos de duas linhas, provocadores e, portanto, um bocadinho impertinentes.»

A inspiração para escrever

«A prosa parece-me um trabalho muito mais fácil para um médico, porque é tudo muito mais racional, é muito mais estruturável. Não é formulado, naturalmente, mas é possível criar uma espécie de fluxograma, criar um protocolo para escrever. Definimos as personagens, definimos o enredo, o tempo e espaço, definimos os pontos essenciais da ação, depois, dentro de cada capítulo, as cenas, dentro de cada cena o movimento. Portanto é um trabalho racional, muito mais próximo daquilo a que estou habituado, enquanto médico. A inspiração vem do mundo rural minhoto, de onde venho e, principalmente, de um certo obscurantismo. Ainda se sente, em algumas regiões no Minho, as pulsões supersticiosas do Catolicismo que mantém uma posição um pouco opressiva sobre alguns sectores da população. Um certo imaginário da região ainda é dominado pelo diabo, pelo inferno, pelos mitos antigos das bruxas, da Maria Gancha, das figuras mitológicas associadas ao contexto rural. O Minho é muito rico, muito distinto do resto do país. Há ali uma tradição galaico-portuguesa muito forte e um tipo de ambiente geográfico que o torna uma espécie de enclave cultural muito curioso. Há também contos que se passam no Antigo Egipto, outros que se passam na Lisboa dos anos 20 (do século XX), um conto distópico acerca de um regime totalitário de base agrária…são experiências ensaísticas. Coloco uma hipótese: ”Como seria, se…?” É um bocado ao estilo Black Mirror

«Já o poema é um prurido intelectual, ou emocional. Tem de se ir lá tratar dele imediatamente, para conforto, e depois de ele ser destilado, a inquietação é resolvida. O próximo livro é um romance. Comecei a escrevê-lo há dois anos. Já vai numa fase bastante adiantada.»

Como a Medicina e a Leitura o inspiram

Leonel Barbosa refere-se à inspiração da Medicina e da leitura na escrita: «A Medicina dá-me algo maravilhoso: dá-me acesso a tipos de personalidade, comportamentos, experiências existenciais, particularmente a vulnerabilidade do Outro, a que não é possível aceder de outra maneira. Porém, acho que o trabalho de literatura é um trabalho de liberdade absoluta. É um domínio da experiência humana a que não é possível aceder de outra maneira. Tudo o que leio, particularmente os autores que tento ir explorando, mostram que é possível atingir limites de imaginação inéditos, e abordar a literatura forma disruptiva, relativamente àquilo que é esperado numa obra.

Tento não ser, só um escritor que utiliza exclusivamente a Medicina enquanto base de inspiração, mas tenho contos como o que “abre” o livro de contos que se apoia muito na semiologia da Medicina. Chama-se «Aurélio e a ausência». Tenho outro conto também, o «Lázaro» que se inspira na experiência de Otorrino no Bloco Operatório, por exemplo.

 

De que forma coloca a Escrita na Medicina?

Sempre que estamos a falar com um doente (acerca de um diagnóstico por exemplo), a forma como estruturamos a comunicação é fundamental. A maneira como contamos a história é fundamental. É preciso introduzir os dados objetivos numa narrativa, ter a sensibilidade social, saber como o doente vai entender o que vamos dizer, de acordo com a sua experiência e de acordo com a sua compleição mental. Portanto, acabo por trazer esses métodos de comunicação da Literatura para a Medicina. Para além de que, interessa saber utilizar gíria ou os códigos de grupo para comunicar com o doente, ferramenta que também é muito usada em Literatura. Os doentes sentem-se mais integrados e compreendidos, e leva a que confiem mais em nós e sejam mais bem cuidados. Por isso, é importante trazer a experiência linguística para a medicina.

Como os seus colegas e a comunidade médica beneficiam em ter um “médico-escritor”?

Temo que para eles o benefício é muito indireto e francamente anémico. Quando falo com os meus colegas em modo “performance circense” acho que pode ser, remotamente, engraçado.

O outro aspeto prende-se com os registos clínicos. Acabo por torná-los mais rigorosos e objetivos, quer por método de trabalho quer por temperamento obsessivo. Acho importante os registos ficarem estruturados de forma que entreguem a informação bem estruturada, que possa ser útil para a quem vai pegar no caso. Atormento os internos diabolicamente sobre a importância de um registo clínico. Não tem de ser palavroso, nem tem de ser redundante. É rigoroso, mas tem de agregar informação com a maior minúcia possível, antecipando a experiência de quem vai lê-lo, e deve ser feito para comunicar, e não por obrigação de deixar algo registado. No fundo é registar com empatia. Quando escrevemos um registo clínico colocamos as informações que consideramos mais importantes: cirurgia ao ouvido no dia tal, por otite média crónica, em doente com antecedentes de …. E depois, no final do processo, esquecemo-nos de escrever como se fôssemos um novo leitor. Essa experiência de, enquanto escritor, ser um leitor também é fundamental na Medicina. E essa experiência vem da Literatura, sem dúvida nenhuma.

O que o entusiasma mais ser definido: como um médico-escritor ou escritor que é médico?

Neste momento, não consigo dissociar as duas. Ambas são tão fundamentais na minha identidade que não consigo imaginar “não ser médico” e “não ser escritor.” As duas dimensões alimentam-se e potenciam-se, e estão entretecidas em mim, como raízes de duas plantas vizinhas.

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